Déjà-vu
replicar arte na memória
MASP - 05.06.2026
São Paulo
foi logo depois de relembrar e revisitar as obras permanentes do MASP - incluindo Van Gogh, Monet e Bosch - que entrei na sala de exposições itinerantes.
chego já cansada, afinal, pegamos o ingresso gratuito do museu de sexta à noite.
chego -também- sem ler onde entrava, algo que sempre faço, e o acaso fez questão de me fazer esquecer.
entro na sala com tons de vermelho, sigo pelos corredores, percebo uma familiaridade com a disposição das obras - algo mais colonial no início que vai caminhando para a modernidade. pensei que a artista era daquelas que não sabia o que queria, criava um pouco de tudo, e sim, há mágica nisso também.
sigo.
olho uma parede branca com 3 quadros coloridos. automaticamente, abro meu bloco de notas e escrevo “memória é ter o que atrelar ao novo”, porque -nesse quadro- reencontrei a visita que fiz ao Tate Modern em Londres há 2 anos.
sinto como se estivesse me teletransportando. algo forte (digno de bloco de notas).
passo para a próxima sala, encaro um novo quadro colorido … dessa vez a pintura de uma parede com um quadro (a pintura de uma pintura, faz sentido?
sem ver o nome, busco no meu celular uma foto que tirei do mesmo quadro retratado. lá, no Tate.
rio sozinha, sem entender o que estava acontecendo. aquele acaso que dá cócegas na barriga, que faz tremer, que empolga.
encontro a foto. é ele, o mesmo quadro que tinha pintado dentro do quadro a minha frente.
(espera que vai dar, eu prometo.
olho o nome da obra. Déjà-vu.
Déjà-vu.
pois é nesse momento do texto que tenho o dever de apresentar Sandra Gamarra Heshiki.
artista peruana que veio a se tornar uma persona inquietante para mim. ela me inquieta até hoje, 12 dias depois da visita.
Sandra me convidou para a exposição “Réplica” sem precisar explicar nada. ela transformou memória em criação. ela me fez conectar com o já visto e o já sentido, e ainda -sem esconder- chamar isso de algo tão popular.
(por muito tempo achei que deja-vu fosse o universo tentando me dar um recado e tenho certeza que não é uma experiencia individual. de certa forma, a newsletter é esse recado.
fazendo uso da explicação do próprio MASP:
Esta é a primeira exposição panorâmica sobre a obra de Sandra Gamarra Heshiki (Lima, 1972), artista central na arte contemporânea latino-americana e internacional. “Réplica” é um projeto que inclui 72 obras, ilustrando o trabalho da artista peruana que questiona como a história da arte é contada nos museus e propõe um novo olhar sobre a herança colonial.
Leia mais aqui.
“Se o museu é um lugar a partir do qual a história é ditada, por que não criar um museu que, sob o mesmo manto de autoridade e permanência institucional, conte uma história diferente? Um museu que possa olhar para si mesmo, questionar-se, complexificar suas próprias narrativas e contar mais do que histórias de progressão linear”, afirma Gamarra.
penso também no papel da arte em reconectar peças de memória. em provocar, mas também cultivar um espaço de retorno, de repertório.
se falamos que infância é um chão que se pisa a vida inteira, será que museus e a arte - como um todo- também não?
e, não só isso, será que tudo que nosso olhar já testemunhou não serve de barbante para ir construindo e reconstruindo novas referências?
foi caminhando no MASP que eu percebi que é por todos os museus que já caminhei que, naquele dia, consegui ir além daquelas paredes.
vi Bosch, me lembrei de quando admirei “Jardim das Delicias” ao vivo; vi Van Gogh e lembrei da parte de seu museu reservado somente aos seus olhos.
(re)vi uma arte reforçando a luta contra a homofobia e lembrei de mim, ali, caminhando pelo museu de São Paulo com a minha namorada.
dito isso, ainda há muita Sandra para pesquisar e consumir. inclusive, ela deixou as réplicas da sua exposição impressas ao final da sala para levar para casa.
seguir replicando.
eu, particularmente, saio sem palavras.
se é que já sai de lá.
gracias navegantes,
nos vemos.
se ressoou, deixe-me saber :)





ler esse texto é tão bom quanto te ouvir explicando isso no exato momento que vimos a obra
te amo e estava com saudades de te ler